30 março 2014

Fuck You, 18


  O telefone toca, mas estou longe demais para poder atender agora. O bolo já deve ter queimado no forno, passado da hora de retirar, mesmo que eu ainda não tenha sentido cheiro algum. Os álbuns de fotos estão espalhados pela mesa de centro da sala, onde eu, como sempre, estava procurando um meio de relembrar o passado e chorar. Eu nunca fui de fazer o tipo dramática ou solitária, talvez por sua causa. Mas hoje eu acho que se pode abrir uma exceção, só por hoje.

  Seria o nosso aniversário de 5 anos de namoro.
  Claro, se ainda estivéssemos juntos isto seria comemorativo.

   Meu cabelo nunca colabora com a minha vida, então, nada de diferente nisso. Meu pijama, que vesti apenas noite passada, já está sujo. Resultado de uma tentativa falha de fazer pizza sozinha na última madrugada que, além de usar os ingredientes que guardava atoa, quase incendiou meu apartamento. No fim eu continuei com fome. Ou talvez as injuizadas borboletas que me restaram no estômago me faziam pensar isso, ficar em dúvida se meu interior reclamava por falta de comida ou de amor. Acho que era os dois.

   Meu vizinho do apê ao lado não estava disposto a deixar a vizinhança quieta. O som ligado em alto volume, a música que eu nem me dei a importância de saber qual era, gritaria e coisas de vidro quebrando eram as únicas coisas que eu percebi que estava acontecendo lá. Que ele era festeiro todos sabiam, a cada semana pelo menos 8 festas eram feitas à noite,  e ele sempre pagava as circunstâncias aturando a reclamação dos vizinhos no dia seguinte.
   Queria saber de onde ele tira tanta animação, nostalgia e, claro, dinheiro para tudo isso. Acredito que ele deve ter nenhum problema na vida pra levar tudo assim, nas maravilhas. Acho que nem nascendo novamente eu seria tão feliz assim. A fumaça que vinha em direção à minha janela indicava que ele estava fazendo churrasco, junto com um breve aroma doce.

  O que me lembrou: o bolo ainda está no forno!
  Merda.

  Me levantei do sofá da sala e caminhei até o balcão da cozinha, com o maior cuidado para não pisar em nenhuma das fotos que estavam espalhadas no chão. Por mais que eu odiasse ver tudo aquilo agora, eu ainda queria guardá-las para um momento futuro que aguardava, em que estaríamos juntos novamente (impossível, eu sei).
   Abri o forno com uma luva e com outra tirei a fôrma. Estava queimado, como imaginei. Ainda assim tive a irônica vontade de comer um pedaço só para deixar claro o quanto eu era ruim naquilo. Abri o gaveta e peguei a faca, junto do isqueiro e de uma vela.

  18 de Outubro, o dia em que você me pediu em namoro, assim como também foi o dia em que terminou comigo…

E agora é apenas o dia do meu aniversário de 18 anos.


Que belo presente, não?! Estou solitária e no profundo silêncio assim como antes.
  Bom, exceto pelo barulho do telefone, que continua tocando.

Bea Alcântara